Quando nasci, nasci sozinho.
Eu, pequeno e o mundo enorme,
a dar-me palmadas no rabo.
Todo ele olhos mascarados
e "toma lá isto" de mão em mão.
De lá para hoje, foi um sopro.
Prolongado e quente
que se sente na nuca e no cachaço.
Como um alguém omisso,
sempre presente nas costas,
a bafejar-me para cima...
... quiçá a sua sorte.
Quando nasci, nasceram todos.
Palmadas só para mim,
mas toda uma multidão surgiu,
proliferou e ergueu mundos.
Pequenos impérios que se entreteve,
entretanto, a dissolver.
Sociedades burguesas,
iluminadas pelo lado obscuro
do sentido de todas as coisas.
Prostitutas e fundos de garrafa,
deus e pátria e tudo...
... todos da minha idade.
Quando nasci, não havia antes.
Nem passado nem herança,
ou dinossauros e cruzadas.
Memórias alheias de alguém,
como maravilhas e unicórnios
e jardins suspensos da babilónia.
No máximo, tudo irmãos,
sem mão comum, que nem mãe temos,
verdade seja dita.
Um acto de fé apenas
como sombras nos telhados da cidade.
Vultos saltitantes que se lançam
no vazio da noite sem rede.
Quando morrer levo tudo.
O que tive e o que não cheguei
a acolher com os sentidos cinco
como os continentes por onde andei.
Todos os beijos, abraços, pontapés
e as guerras que não vivi.
Quando morrer, não mais palmadas.
Tudo luto que se cuida
como se continuasse a existir.
Zéphyro 24-07-2014
Adoreiii!!!! Lindíssimo!!! Carla
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