Com a janela aberta,
as coisas vão-se com o vento.
Memórias e papelada velha
esquecida fora da gaveta.
O barulho é insuportável
e sente-se o cheiro da carcaça
que, como fonte ou escultura,
enfeita o centro da praça.
Com a janela aberta,
o vento traz o guinchar dos corvos
que rapinam os olhos de estátua.
Fica menos assustador
um cadáver sem os olhos.
Nem encanta nem condena.
Nem pressiona nem ignora.
Apenas não olha e chora sangue.
Se fecho a janela,
sinto saudades da vista.
Sinto a falta de quem passa para ver.
Será que viram os corvos
que debicam a estaca
que segura o morto,
para limpar os bicos
dos restos da refeição?
Com a janela fechada
entra menos luz,
que as portadas têm enguiço.
Aberta é tudo branco,
branco e penas pretas
que esvoaçam pelos cantos da casa.
Zéphyro 09-08-2014
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