O cortejo já vem a entrar na vila!
Já se avista o andor, sufocado em velas
e em pesadas pancadas dos tambores da fanfarra.
A Senhora vem em ombros
transpirados e erectos de orgulho,
que é sedentário o nosso deus que sempre espera
e sedento o povo que se endeusa para assistir.
Os cães sarnentos pelos cantos,
latem mais um ano de seca
com as moscas a tiracolo.
Vão ganindo e mordiscando no ar
aqui e além, os ossos e o almíscar das oferendas.
Já há muito somos semi nómadas
correndo atrás de rios e pão
e do litoral distante para conquistar.
Mas o nosso deus não desarma o arraial,
alapado no altar que lhe erigimos
de frente para o horizonte acidentado
e ainda verde das montanhas.
Banqueteia-se com os pitéus
como os cães que mastigam do ar, nunca satisfeitos.
Mesmo bradando aos céus vazios da noite,
polvilhado de luzes funestas,
pela salvação dos campos e dos bichos.
Mesmo com o altar a chegar ao cruzeiro,
já descambado, que o orgulho não vence
as costas fracas da lavoura,
a resposta nos aterra em mãos.
Temos inevitavelmente de esperar
pelo final da festa, meados de Agosto.
Até lá, nem vislumbre do seu apreço...
... e está tão linda a procissão!
Os cães, cada vez mais esbatidos
e de rabo preso, fogem
para deixar passar o povo pobre
que carrega, quase arrasta, o seu ídolo de barro.
Solidários, só eles e os salmos prostrados
ensaiados em uníssono pelas viúvas
dos festivais esquivos de outrora.
Chorosas entre véus negros,
desfiando as contas dos rosários
que o vigário benzeu na véspera.
Especialmente para a quermesse!
O andor já lá vem,
com a senhora a pairar no fumo
dos sírios já ardidos até ao coto.
Uma espécie de assombração acordada
com sorriso puro de louça morta.
Toda a comitiva chegou, a rogar.
uma caravana de peregrinos
a quem os cães nunca ladram
e não têm por onde morder.
Zéphyro 28-07-2014
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