Não raras vezes dei por mim a constatar que, deveria fazer um blogue.
Sempre escrevi, muito... sobre tudo e sobre nada, porém, nunca me pareceu bem mostrar aos outros o que havia escrito. Fosse poesia, prosa ou mero desabafo, torna-los, digamos, de domínio público, sempre me intimidou. Quase ao mesmo nível que andar por aí, despido nas ruas.
Agora sinto que é a hora certa! Sou neste momento um naturalista das palavras.
Este blogue nasceu... porque sim!
Comprometo-me a ser o autor de todos os meus posts, bons ou maus, ignorados ou apreciados!
Espero que se divirtam a ler e a postar o que bem vos aprouver.
Façamos deste espaço uma espécie de cyber muro das lamentações.
Abraços
Não resisti em partilhar um dos meus poemas preferidos, para marcar a inauguração deste belo espaço!
ResponderEliminarPortanto aqui fica:
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sol das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
(Eugénio de Andrade – 1987)
É sempre uma infinito prazer recordar este estrondoso poema. De linguagem tão simples e resignada que nos deixa rendidos ao primeiro verso.
ResponderEliminarEugénio de Andrade é um dos meus favoritos. Fala directamente do coração, sem passar pelos clichés da mente vulgar.
Bem hajas pelo comentário. Espero humildemente que seja o primeiro de muitos.
Abraços,
Zéphyro
Antes de mais quero começar por dar os parabéns por este novo espaço e espero que finalmente atraves dele todos possam conhecer um dos teus fantasticos dotes: a escrita! Apesar de sentir um bocadinho de "ciume", porque vou deixar de ser uma das poucas pessoas a ter o privilegio de ler o que naturalmente te sai, sejam poemas ou meros desabafos, nao é justo que outras pessoas nao o conheçam. Porque es fantastico e coisas como esta devem sem divulgadas!
ResponderEliminarContinua e nunca percas esse teu dom, pois foi uma das muitas coisas que me fez apaixonar por ti...
Parabens e um beijo do tamanho do mundo!
Cheyene e Helena