Lá fora o céu passa, fugidío,
o verde pardo do Outono corre
e eu sinto na espinha o calafrio,
de ver perto de mim tudo o que morre.
Como se aquele champanhe festivo,
de gordas bolhas e flor em riste
não mais fosse que pranto nocivo,
pranto que agora bebo, tão triste.
Como se houvesse lido cada momento,
ou contado cada alvorada, cada onda do mar.
Como se sentise na pele, já o tormento
de tudo que venha um dia a respirar.
E o céu continua a correr,
soprado, inexpressivo em direcção ao nada.
E o que agora vejo, é que mesmo o que não doer
será... o de sempre, o vício, a morte decorada.
Como se a dor, que outrora partilhamos,
não mais fosse agora que lamento sem sentido.
Como as palavras e os ecos que entoamos,
houvessem ficado mudas, no peito contido.
Ou a cor, a cor que me fez sorrir,
se prostrasse num simples tom,neutro e tenaz,
num monocroma, que ao ver fugir...
me falta a fé para ir atrás.
Um dia o céu estagna e irei sentir,
novamente o gosto, o gosto de cada quando
e escutarei o som, de cada mundo que cair,
e o dos que conquistar, pensando!
Não mais verei um poema vazio, desnudo,
não lerei palavras, cuspidas no papel.
Tudo será o que era, tão doce, tão tudo,
verei de novo cores, amadas a pincel.
Como há sempre um poema que retrate aquilo que às vezes estamos a sentir...e este de um grande senhor...
ResponderEliminarNão sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
(…)
Fernando Pessoa, 1888-1935
Caro amigo, continuas a revelar uma enorme sensibilidade que muito me apraz. Fernando Pessoa, é, sem sombra de dúvidas, o meu autor preferido. Principalmente a obra Ortónima.
ResponderEliminarUma alma desassossegada, um espírito impuro e inquiete que, caso não fosse português, seria certamente conhecido como o maior poeta de todos os tempos.
Continua a comentar! São esses grandes génios que tens postado os responsáveis pelo o amor que tenho á escrita. Esses e muitos, muitos outros.
Abraço.
Zéphyro