A noite chegou vadia e triste,
e tu deitada, de tez em riste,
ofegaste nua por um travo de mim.
Trazias na pele a luxuria e o carmim,
que em teus olhos espraiava o rubor.
Gemeste por nada, sussurraste a dor,
e estendi-te a mão para as noite que esbanjo.
Pairamos nos céus, qual anjo e arcanjo
despidos de ensejo, em desejos de rosa.
Estendeste-me o leito, de boca pomposa,
pairei tremendo de toque e apelo,
vi o teu sexo no cheiro do teu cabelo...
Foi este o mundo que almejei... bonito,
onde o suor é rei de prazer infinito.
A noite chegou e disse o teu nome,
em leçois de seda de redondo saber.
Em murmurios suaves amando a fome,
que o devaneio de ti a faz querer.
A noite é esta, como outras tantas,
e sempre me gemes, devoras e encantas,
que vivo no sonho de nunca acordar...
de ter-te na noite, eterna a brilhar.
De perto a ser ninfa de mel divino,
Estrondo de trovão em eco de sino,
a foice que ceifa as vidas que esmero.
Parca de risos, desejo austero,
que prendes e soltas meu desejo na voz...
que não ergues nunca serena e atroz.
De tudo que fui passo a sobra jazida,
que partes e retalhas pela tua vida.
Mesmo sabendo que nem tudo vivi,
não mais sairei deste sonho de ti.
É ele o eco por quem berro á montanha,
a face que pretendo da moeda atirada.
Hei-de sempre beber-te, com sede tamanha,
que não restarei eu, apenas tu... deitada.
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