quinta-feira, 16 de abril de 2015

Cada vez mais bonita

Não sei como não te perseguem
os homens na rua, até à porta de casa.
Já te conheço há mais de meia vida
e estás cada vez mais bonita.
O céu, cada noite está mais escuro
e apagado de estrelas
e esburacada está a atmosfera
que não filtra a luz do sol
que nos mata todos os dias um pedaço.
Antes era bom o sol, agora faz doer.
Tu não, estás cada vez mais bonita
e cada dia mais quente do que ontem.
Nem sei como não rezam a ti nos templos
se há outros deuses e deusas
bem mais feias e bajuladas por homens e mulheres
e velhos e crianças de toda a parte.
Já metade da minha eternidade fugiu,
por entre as nesgas dos meus dedos
que ergo alto nas mãos com que te faço vénias
e tu, cada vez estás mais bonita.
Ao contrário do que dizem,
muito bons vinhos dão em vinagre a seu tempo,
capazes de embaraçar outros tantos Dionísios por aí.
Muitas almas emburrecem com a idade,
perdendo nas rugas de aventesma a sabedoria
de outrora, quando de noite ainda era cedo.
Tu não envelheces, ou pouco se nota.
E não é da minha vista que tenho todo o alcance ainda.
Simplesmente a idade, não tem tarimba suficiente
para te fazer viajar com ela.
Cada dia que passa, estás mais bonita
e eu mais grato de poder chamar-te minha.
Nem sei, honestamente, como só de te ver passar
não se ajoelham as árvores dos parques
envergonhadas pela falta de exuberância
das suas folhagens quando comparadas a ti.
Já caminho ao teu lado há meio mundo
e não te vi perder ainda réstia de graça,
não te vi deixar para trás, nas lamas,
nenhum passo deselegante ou desordenado.
Tudo em ti é sintonia
e tudo em ti é sinfonia
que não canso de escutar, todos os dias,
logo pela manhã e antes de deitar.
Tudo em ti é simbiose
e tudo em ti é metamorfose,
brotando do casulo de seda.
Que sorte tenho eu de poder assistir
ao teu bailado de borboleta colorida,
que esvoaça por toda a parte
mas poisa sempre nas minhas pétalas desbotadas.
Não sei como é possível alguém viver sem ti
e chamar belo ao que quer que seja que o rodeie.
Já abracei mais de meia morte
e tu cada vez mais viva,
cada vez mais bonita.


Zéphyro   16-04-2015

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