Sentado por estar, fito o vazio. O precoce ar tépido deste Abril em que me esvaio, bate-me na cara, no peito nu e humedece-me a retina. Quase ouço o tempo a passar e, estou calmo…
Corre na minha cabeça o filme dos meus dias, corre em segundos, uma e outra vez, e o vazio, lá de fora, continua a fazer arder o meu olhar. Contudo estou calmo, estou em paz.
Sinto o peito cheio do fumo que sorvo absortamente, que me faz latejar a cabeça e que torna vítreo o aspecto do mundo, que me entorpece os sentidos, me pressiona os ombros em direcção ao chão, que já não tenho debaixo dos pés. Porém, estou calmo, impávido.
As imagens rodeiam-me como miragens, como se fossem feitas do mesmo material dos sonhos… uma espécie de plasma enegrecido, deformado e psicadélico, trazendo a mim um conforto tão surpreendente, tão resignado, que quase me sinto feliz neste fim de tarde.
Estou sentado, ou talvez não, olhando para nada, para “O Nada”, para mim mesmo e para aquilo em que me tornei. Sem vislumbres do que já foi, do que poderia ter sido, do que poderá ainda ser, nem o cheiro lhes sinto… são farrapos de memória perdidos num qualquer confim temporal da minha existência. Só me resta este entardecer onde me vejo sozinho, com a calma nas veias e nos pulmões, conformado e embalado pela quente e carinhosa mão da inevitabilidade.
Estranho de mim para comigo o paradoxo desta jigajoga a que chamo vida. Todos os meus objectivos me parecem desprezíveis, pecaminosos até, todos os meus dotes me parecem piadas, sem graça, tudo o que digo me soa a monólogo, desprovido de sentido, como se falasse em estado de embriaguez permanente. Rio-me de mim mesmo. Todas as minhas certezas são inúteis, são mesquinhas, parvas, completamente irrisórias, meros caprichos. Falhei, sou um Falhado… e que bem sabe dizê-lo. É quase como apregoar a tudo e todos um novo título, um novo epíteto, um novo direito que é só meu!
Com a Primavera a marejar-me o olhar, cá estou. Amaldiçoo todas as minhas conquistas, que têm agora o travo dos castigos, corto finalmente as minhas metas… pela raiz!
A calma deste entardecer, presenteou-me com a certeza, por fim a certeza.
Tudo se foi, lutei e perdi. Perdi de vez, perdi de morte. Não mais sentirei a pressão das grandes vitórias, não mais a sociedade me gritará os seus padrões.
No desterro deste entardecer, estou no esquecimento, sem pressões ou expectativas, nunca mais. Sem falas, falhas ou festas. Sem dar e receber, sem ajuda ou cooperação. Ninguém me dá, ninguém me exige, ninguém me desilude e ninguém me faz feliz.
Que paz me traz ao rosto este crepúsculo de Abril.
Este "quase me sinto feliz" é fantástico.
ResponderEliminarAbraço
Judas Priest