domingo, 7 de setembro de 2014

Domino

Primeiro foi a tua mãe,
comida pelo pâncreas
de dentro para fora.
Definhou-se e foi-se,
deixando perdida no além
a figura parruda que ocupou.
Na última mirada que lhe deitei,
era apenas uma boneca de cera,
vincada e seca como uma passa.
O teu pai, bebeu de um trago
a vida que lhe restava.
Num gole repetido, de bagaço
ou vinho do barato.
Afogou-se na própria dor
que optou por sorver
em cada copo virado na mesa.
Foi-se tão seco como a tua mãe
e empurrou-te para o abandono.
Quando vimos, já só eramos nós
esperando o empurrão pelas costas,
que, certamente, havia de chegar.
O meu menino? O meu menino levaste-o tu!
Na viagem da qual também não voltaste.
Foram de manhã e nada de vocês á noite.
Fico sem jantar e sem sentido,
bebendo só as lágrimas que não contenho.
Temo sair pois tenho a certeza,
que um dia ainda tocas na porta
que te esqueceste outra vez das chaves.
E o meu menino inunda de novo a casa.
Só resto já eu, combalido,
vencido pela vida que me fugiu mais cedo.
Do alto da ponte, parece mais luminosa
a cidade que me chama lá em baixo.
Nunca mais vem a mão que me há-de empurrar.
Foi estranho ser tudo tão rápido.
Passou tudo num ápice de vãs memórias
que me chamam agora lá de baixo.
Olha, lá vêm eles ao meu encontro!

Zéphyro  07-09-2014

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