quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Nómada

Preciso de algo espiritual.
Festejar a primavera, saudar a lua nova,
preciso de algures onde exista noite e dia.
Mostra-me as comemorações da tua tribo!
Que danças dançam e em redor de que fogueiras.
Mostra-me as vossas tradições, ensina-mas!
Que costumes, que vestimentas, o bem e o mal.
Fala-me dos deuses a quem rogam!
Dos refúgios e santuários,
das orações e sacrifícios,
dos primogénitos, das virgens e dos pecadores.
Preciso de algo novo, esquecido no tempo.
De novas lutas, contra inimigos distantes.
De novas lavras em terra desconhecida.
De novos amores e novas empatias.
Sem ódio, raiva, inveja, ganância...
sem civilização, sem civismo, sem democracia.
Mostra-me o ancião da tua tribo!
O alguém supremo, o sábio.
Mestre que dita vontades e contos antigos.
O pêndulo que condena o tempo
e nos diz quando o sol se põe.
Leva-me! Faz-me um dos teus!
Um caçador de sonhos, na terra da realidade,
na terra dos crédulos e dos pagãos.
Mostra-me um mundo com receios!
Um céu imenso e pungente,
que a qualquer momento nos pode cair em cima.
Quero, também eu, montar a cavalo sem arreios.
Em pêlo, liberto, com o vento nos cabelos.
Com o sal do ar a secar-me os lábios,
e o sol a bronzear-me as rugas.
Leva-me para a tua vila, para a tua tenda.
Quero também ser pobre, sem lei.
Quero também ser Homem, ser livre!
Mostra-me as procissões pela chuva,
as cerimónias aos deuses da caça.
Preciso do alimento que a natureza me destinar.
Preciso de ser igual a todos os outros,
partilhar o meu quinhão com os mil irmãos e irmãs
a quem este tecto sagrado me une.
Dividir pesadelos e desventuras,
untar em mim as feridas alheias.
Quero falar esse dialecto!
Sem insulto, ironia e sarcasmo.
Esse linguajar perfeito,
onde não há vocábulos ou regras.
Só arte e espirito.
Da-me esse teu mundo!
Deixa que me dê a ele!
E ser um só mais, um só muito.
Eterno, agradecido e sagrado.

Zéphyro  07-02-2013

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